Novembro 16, 2011

Em que pele você habita?


Se não achei o príncipe encantado, vou transformar o sapo em um. Levante a mão quem nunca embarcou nessa. Mulheres, e homens também, geralmente tentam moldar seus pares ao seu bel prazer, à imagem e semelhança de quem gostariam que eles fossem. E isso é de uma violência atroz para o outro, que se sente sempre “errado”, oprimido, fora de lugar, atuando dentro de um personagem que não ele próprio.

O fato, tão comum nos relacionamentos, é colocado de maneira caricatural em “A pele que habito”, de Pedro Almodovar, em cartaz nos cinemas. Um médico transforma o estuprador da própria filha na mulher de seus sonhos (sua já falecida esposa).

É incrível nossa capacidade de sublimar a pessoa que está na nossa frente e nos iludir que ela é quem a gente queria que fosse, de modo a preencher nossos desejos e expectativas. Só que o resultado de qualquer ilusão criada por nós mesmas é frustração. E é esse o sentimento que sempre vem quando abrimos mão de distorcer a realidade e finalmente enxergamos quem verdadeiramente é a pessoa que está conosco. Aí, o que geralmente ocorre é que culpamos o outro pela nossa própria frustração de ter descoberto o óbvio: o que ele sempre foi.

Na verdade, você é a responsável por não querer ver quem realmente era a pessoa que estava ao seu lado todo este tempo. Para evitar frustrações, mais fácil trocar a sua pele do que a pele do outro.

Ela vem chegando...


O que você faz quando percebe que um certo sentimento de tristeza está prestes a invadir sua alma?

a.( ) Foge como o Diabo da Cruz. Finge que não é contigo, vai pra balada dançar, bebe com os amigos, dá gargalhadas, gasta o que não tem no shopping.
b.( ) Aceita e dá as boas vindas à tristeza, mergulha de cabeça na deprê total, sem resistências.
c.( ) Observa com tranqüilidade. Fica mais introspectiva, quieta, na sua, sabe que vai passar.

De forma bastante tosca, essa é a temática do filme “Melancolia”, de Lars Von Trier, em cartaz nos cinemas. É claro que a obra é bem mais complexa do que o jogo de alternativas simplistas que abre este post, mas segue mais ou menos por aí.

O “Planeta Melancolia” começa a se aproximar da Terra, o que causa uma “tensão” nas pessoas e nos relacionamentos. Conflitos internos e externos começam a ser percebidos (pelo público que assiste o filme) numa festa de casamento. Mas a história se desenrola até os personagens tomarem conhecimento do tal fenômeno astronômico.

Os comumente classificados como “autodestrutivos” embarcam na do “planeta Melancolia” sem qualquer resistência. Têm até um certo prazer em estar perto dele, na mesma vibração. Outros, que poderiam ser chamados de “otimistas”, tentam fazer do episódio um evento, entendê-lo e apreciá-lo. E há os que pelam de medo, tentam fugir, se inquietam e ficam desesperados como baratas tontas.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser como é, já disse Caetano Veloso, mas Freud avisou: a alegria é um evento episódico e não constante. Ou seja: é natural haver momentos de alegria assim como de melancolia ao longo da vida. Por que não encarar, então, com naturalidade a tristeza? Racionalmente, é fácil entender que a maneira mais “saudável” e fácil de vivenciá-la é observá-la com tranqüilidade, tentar entendê-la e até mesmo apreciar o que pode trazer de bom, em termos de reflexão e atividade artística. Enxergar a tristeza “como fim do mundo” só nos leva ao desespero e a destemperança. Já idolatrá-la e querer manter aquele sentimento sempre ali com você é o pior dos mundos.

A questão é: dá para escolher? Não é tão fácil como marcar um x em um teste de revista, mas é possível direcionar o nosso movimento diante de um sentimento. O primeiro passo é saber qual é o seu movimento diante da aproximação da melancolia. Você sabe? Prefere deixá-la dominar você, tentar dominá-la ou negociar com ela?

Outubro 26, 2011

Meninos não choram


Eu observava o menino de nove anos, no velório de sua tão querida avó, impávido. Parecia que nada estava acontecendo com ele. Na cara, indiferença. Nos modos, alienação. Perguntado se estava triste, resmungou um “por que?” como quem diz “ficou louca?”. Enquanto isso, a irmã, de 7 anos, metralhava questionamentos: “eu nunca mais vou ver minha avó? Pra onde ela foi? Doeu?”.

Porém, no último minuto, na hora de fechar o caixão, o garoto balbuciou baixinho “espera, espera”, e foi dar uma última olhada no rosto de sua avó.

Mais tarde, ele brincava com os primos, impávido.

Quando é que um homem aprende a disfarçar seus sentimentos? Acho que bem pequeno. A máxima “garotos não choram”, aparentemente ainda em voga em 2011 – quando ocorreu o tal velório – , é absorvida de maneira muito mais profunda do que o chorar propriamente dito. A mensagem é: garotos não devem expressar sentimentos, nem de amor, nem de dor.

Podemos enxergar indícios dessas sensações em pequenos atos, se tivermos sensibilidade. No brincar, no sorriso maroto, felicidade. Na quietude, no silêncio, no cansaço, tristeza e solidão. É preciso aprender a traduzi-los. E quando não se aprende, são mal interpretados, causando grandes estragos numa relação.

Quanto mais eles se escondem, mais elas futricam, perguntam, questionam. É uma retroalimentação de comportamentos de gênero estereotipados.

Outubro 14, 2011

O número importa?


Eu nunca gostei de matemática, mas a vida parece ser pautada por números. É quase impossível escapar deles. O nosso mundo interno, completamente subjetivo e preenchido por palavras, pensamentos e sentimentos caóticos, é atropelado pelo mundo externo – que tenta ordenar nossas atitudes, classificá-las enumerá-las. Mas ser “socialmente correto” pode nos custar muito caro. Além de ser “intimamente irresponsável”.

Desde pequenas começamos a fantasiar sobre o futuro baseadas em números. “Vou me casar aos 25 anos com um cara de 30 e terei 2 filhos”. Mais tarde, começam as cobranças...Quantos caras você já beijou? Mais de 20 com 15 anos, ah, então é galinha. Já tem 20 anos e nunca transou? É travada. Está com 30 e ainda não se casou? Ficou pra titia. Está chegando os 40, cadê os filhos? Parece que todo mundo tem de seguir o mesmo caminho, sem nunca verdadeiramente descobrir e trilhar o seu.

O filme “Qual é seu número?”, que estréia nesta sexta-feira, 14, nos cinemas brasileiros trata exatamente deste “peso” que o mundo exterior exerce sobre nós. Após ler numa revista feminina que mulheres que transam com mais de 20 caras tendem a não se casar, uma garota que já transou com exatamente 20 homens se desespera. Após fazer os cálculos, ela conclui: “se eu quiser me casar, terá de ser com algum dos meus ex-namorados!”. Sai então numa busca insana atrás de seu passado. É como se ela não confiasse que sua experiência até ali a tivesse feito evoluir, mudar nem trazido qualquer autoconhecimento. E não trouxe mesmo porque, até aquele momento, seus olhos estavam voltados apenas para fora, para o que os outros queriam dela. Jamais se voltaram pra dentro – “o que eu realmente desejo?”. Até mesmo a ânsia por se casar estava sendo pautada pelo casamento da irmã mais nova, que havia ficado noiva, e pelo desejo da mãe – esta amargurada pelo fim de seu casamento e tentava se realizar através das filhas.

A comédia romântica, que a princípio pode parecer “bobinha”, com um roteiro fraco e adolescente, acaba nos surpreendendo, se aprofundando em questões essenciais sobre relacionamentos familiares e a influência que eles exercem sobre nós. De quebra, traz o gostoso do Chris Evans no papel do personagem que vai levar a protagonista ao encontro da sua essência.

Setembro 22, 2011

A origem


Você tem pouca influência sobre o querer dos outros.

O querer de alguém vem antes de você aparecer.

Se o cara está predisposto a gostar de alguém e você cai de paraquedas neste momento na vida dele, sorte sua! Ele provavelmente vai querer você.

Você pode ser linda e gostosa, mas se o cara tem predisposição a gostar das gorduchinhas, não vai adiantar.

Assim, poupe energia no esforço de conquistar. Seja você e, um dia, vai aparecer um cara que tem predisposição pelo seu tipo. Sorte dele se você também estiver predisposta a querer o moço...

Goooool!


Você faz mais gols contra ou a favor de si mesma?

Quando está triste, come ou bebe até não poder mais? Gol contra. Vai engordar, ficar mais feia, pagar mico e mais triste.

Se, ao contrário, vai malhar pra encher seu corpo de adrenalina. Gol a favor. Vai ficar gostosa e, por conta da adrenalina, mais feliz.

Quando está a fim de alguém. Foge e fica tímida? Gol contra. Não está fazendo nada produtivo em prol de conseguir o que quer.

Se, ao contrário, dá mole e se mostra para o cara. Gol a favor. Tem chance de conseguir. Pelo menos tentou ao arriscar-se.

Quando está cansada, vai para a balada e bebe horrores, com a desculpa de “relaxar”. Gol contra. Vai ficar mais cansada ainda.

Se, ao contrário, vai dormir, gol a favor. Vai acordar bem disposta e acabar com o cansaço.

Quando está irritada, grita e briga. Gol contra. Vai potencializar a irritação e ainda corre o risco de magoar alguém e ficar chateada consigo própria.

Se, ao contrário, fica quieta, faz uma meditação, liga pra uma amiga pra mudar de assunto, gol a favor. Vai abstrair e potencializar o bom humor para mudar a situação mental.

Afinal, em que time você está jogando?

Porque sumi


Estou sem tempo de pensar sobre relacionamentos. Por isso o gap tão grande entre um post e outro neste blog. Daí, parei pra refletir: será que a falta de tempo de pensar sobre relacionamento indicaria a superação de uma fase?

Talvez sim. Talvez a necessidade de pensar sobre relacionamentos e alimentar conflitos internos a respeito deles seja uma estratégia de autoconhecimento. Porque quando você pensa sobre relacionamentos está, na verdade, pensando sobre si mesma e como você lida com suas emoções. Portanto, quando você dá um tempo e diminui a necessidade de pensar sobre isso, talvez seja porque você já adquiriu conhecimento suficiente sobre as emoções. Vamos passar para a próxima matéria, então, sobre a qual eu desconheço?

Talvez não. Talvez apenas indique que você está estável neste momento, sem grandes conflitos. Mas, a qualquer momento, o turbilhão de questionamentos pode voltar.

Talvez seja o contrário. Neste caso, não querer tocar no assunto talvez seja uma forma de fugir do tema porque não quer encarar um possível conflito e está acomodada. Assim, melhor deixar quieto e não se mover.

Quem sabe? Ninguém. A gente sempre só opina. Se fosse matemática, não existiriam tantos blogs e posts divagando sobre o assunto. Mas, no final, eu acabei me rendendo e pensando, mais uma vez, sobre o tema neste post. Olha só!

Agosto 19, 2011

Amiga!


"Amigaaaaaaaaaaaaa!" seguido de vários gritinhos finos, até pouco tempo atrás, era algo comum de se ver em aeroportos ou quando se esbarrava surpreendentemente com uma pessoa querida, em algum lugar inesperado, depois de muito tempo sem se ver.
Hoje, todo mundo é "amiga" .
Virou mania chamar de "amiga" a colega da academia, a vendedora da loja, a amiga da amiga, a cunhada, a colega de trabalho, a manicuri.
E soa tão falso. No máximo, intimidade forçada. Talvez uma tentativa de mostrar para os outros, que estão à volta, o quão próxima você é das pessoas. Nesse caso, insegurança. Em qualquer hipótese, não parece legal.
Estão banalizando a palavra e, portanto, o sentimento.
Amizade deveria ser palavra sagrada, quase tabu, porque a que realmente traduz o sentimento verdadeiro, quase não existe.
Amiga mesmo é aquela em quem a gente confia, que gosta da gente mesmo com todos os defeitos e de quem a gente gosta com a mesma reciprocidade. É aquela com quem a gente tem afinidade de alma, quase mágica. Que se preocupa, dá bronca, dá ouvidos, dá colo. É pra quem a gente tem vontade de ligar quando algo ruim acontece. E quando algo muito bom também. É com quem a gente se sente bem vendo um filme, na balada, no bar. É de quem a gente tem ciúme e até inveja, sim, porque somos humanas. Mesmo assim, desejamos só o bem dela.
Talvez essa seja uma visão romântica e ultrapassada da amizade e que, hoje, para ser amiga, basta estar na sua página do Facebook.

Maio 17, 2011

Assassinato do machismo


Uma garota de 18 anos estrangula o amante para não ser estuprada por ele em um motel. Uma camareira liga para polícia logo após ser assediada sexualmente por um diretor do FMI. Depois, entra na Justiça contra ele e não aceita fiança, exige a pena de prisão máximade 5 anos.

Aparentemente um excesso, uma violência exagerada contra os homens, é, na verdade, uma revanche incontida. Uma raiva reprimida durante séculos a fio que agora vem à tona com a força de um tissunami. Se o machismo não morre de morte natural, de velhice mesmo, as mulheres o estão assassinando a qualquer custo. É que provavelmente custou muito para elas engolir caladas o abuso de poder masculino.

Namorados e maridos não deveriam nem se espantar se, ao menor sinal de contrariedade, as mulheres ficam umas histéricas descompensadas. É a reação mínima de quem teve de obedecer em silêncio por toda uma eternidade. A submissão obrigatória ficou registrada em nossos genes, bem como a tendência ao autoritarismo está gravada no deles até hoje. E sobrevive a tantas gerações.

O assédio sexual, encarado como lisonja até pouco tempo atrás, começa agora a ser tratado como merece (e como é, na essência): um poderosa arma masculina de coerção e afirmação do poder do macho.

Não, não sou feminista. Nem defendo assassinatos ou qualquer tipo de violência. Mas, como a maioria das mulheres modernas, quero relações igualitárias, de pessoa para pessoa, ser humano para ser humano, e não de animal para animal. Se o lado mais primitivo do homem ainda encontra brechas para atuar, as mulheres também mostram o dela, medindo forças com a mesma moeda. Parece que todos vamos ter de ficar mais comportados e civilizados. Se não por livre e espontânea vontade, por força da lei.

Abril 30, 2011

Tensa ou intensa?


Viver com intensidade pode ser incrível, como também muito pesado. Porque intensidade é levar tudo muito a sério. Você mergulha de cabeça, de corpo e alma no que vive e realiza. E quem leva a vida na flauta, está aqui de passeio, olha torto para pessoas intensas.

Às vezes, realmente, se perde a mão. Mas, afinal, quem consegue atingir o meio termo? Me pergunto se o bom senso existe mesmo. O que é bom senso? Quem o considera bom? O bom senso parece ser a coluna do meio, que pode ser encarada, pelos intensos, como “estar em cima do muro”, nem do lado de cá nem do lado de lá.

O intenso posiciona-se. Assume posturas radicais, para um lado ou para o outro. Ser assim requer estômago para bancar-se e lidar com as repercussões. Requer coragem para defender pontos de vista. Requer autenticidade.

Os intensos buscam a verdade de seus próprios sentimentos e não o conveniente. Aliás, buscar o conveniente pode ser um fardo muito mais pesado, uma vez que o desejo nunca é alcançado, apenas o desejo dos outros. O seu se perde no meio do caminho.